A solidào do tempo

março 5, 2018 - Por Pe. Gilson Santos

Parei para refletir no que eu poderia escrever aqui.

Fiz silêncio… Escuto o som do meu relógio na parede, ele marca 10h55m. Olho ao redor, começo a pensar na solidão do tempo… “Que esquisito! Penso e questiono a mim mesmo: Desde quando o tempo tem solidão? Não é o ser humano que sente essas coisas? Afinal o tempo não tem sentimentos e não pensa! Ele não tem consciência da sua existência, que loucura a minha pensar que o tempo sente!” De fato, o tempo não sente e não pensa, ele simplesmente caminha ou corre, depende de nós, da nossa sensação, do modo como o vemos. Mas ele não para, diz Cazuza, não para não.

Mas hoje o tempo sussurrou no meu ouvido e disse: “tempus breve est”. Quis segurá-lo naquele instante, como em tantos outros momentos, quis retê-lo, atrasá-lo, pará-lo… Pensei: “como sou volúvel, meu Deus, pois em tantos outros momentos eu quis que ele corresse, que fosse rápido, que pulasse as horas…” Tive raiva dele por isso. Mas de novo paro e penso: “o tempo cumpre apenas a sua função”.

Refleti sobre isso e conclui: “o tempo é sozinho, por isso ninguém o entende”. O tempo busca se isolar, quer o silêncio, não quer muita conversa com finitos, com pessoas que não o compreendem, que não sabem vivê-lo. Ele percebe como o desperdiçamos e não o valorizamos. Quer cumprir apenas o seu papel. Mas o único momento que ele parece gostar de estar conosco é no silêncio, fora do barulho e dos ruídos estéreis. Ele nos fala quando sabemos ouvir o seu descompasso, nos diz o que precisamos ouvir e às vezes grita dizendo que nós o estamos perdendo com frequência, e que, uma vez que o perdemos na estrada, não podemos recuperá-lo, que ao perdê-lo, perdemos um pouco de nossas vidas…
O tempo é solitário, tem cara de poucos amigos. Não é fácil andar no seu ritmo ou no seu compasso.

Ele então me disse de novo ao pé do ouvido: “O seu relógio é apenas um reflexo do Relógio Divino onde não há passado e nem futuro, mas apenas o presente, o hoje, o agora. Sou sozinho na caminhada, sou assim porque não tenho tempo a perder, além disso, eu vivo o instante…”. E acrescentou com seu ar de superioridade, mas ao mesmo tempo demonstrando muito simplicidade, que “o instante também se faz passado e que, por isso, não me apego ao que não mais existe. Que se recorda dos momentos felizes, lembra e sofre dos momentos tristes, que aprendeu muito com o passado, mas que o que importa é o momento em que está, pois só existe este momento para viver e ser feliz”. O tempo me disse ainda que “toda solidão precisa de presença, que ela se torna fecunda na arte do encontro com o outro: criação e alteridade”.

Perguntei então quem é o outro? Ele me disse que o outro é aquele que não sou eu, mas que me completa, pois me questiona, mostra os meus limites, a minha finitude, e que me revela que sozinho nada sou.

O outro, disse mais, é toda coisa criada, pois somos apenas uma parte de um todo. O outro é arte que me faz ver o belo e que nos mostra como devemos ser para além das aparências.

O outro, disse ele, é a mãe que chora a perda do seu filho pequeno, é o pai que não consegue trabalho e vida digna, é o doente preso ao seu leito e aos seus sofrimentos, o outro é o ancião no asilo quando sente a solidão do abandono e que olha todos os dias para a porta para ver ser alguém vem lhe ver; é o que sofre de depressão e que busca tirar sua dor de qualquer jeito.

O outro é o exilado e o emigrante quando longe de suas pátrias olham para as estrelas todos os dias e choram a saudade de sua família e dos seus lares…

O outro é aquele que passa fome por sofrer as injustiças de poucos que detém o poder e o dinheiro.

O outro sou eu, com as minhas virtudes e vícios, coragem e fraquezas, vitórias e derrotas…

Quantos outros existem, mas não enxergamos! Não temos tempo para parar um pouco e conversar e aprender com eles. Todos os outros revelam um Outro que vai para além de mim mesmo”.

O tempo olhou então para os meus olhos, fixou-os bem e disse novamente: “Tempus breve est!” Congelei! Senti agora todo o seu fardo. Ele continuou: “Assim como uma gotinha de água termina no encontro com o oceano, perdendo-se inteiramente no mar, não pertencendo mais a si mesma, de forma que não se é mais possível tirar essa gotinha do mar, assim eu também termino em algo maior”. Dessa forma, meu amigo, falou ele mais brandamente: “Todos nós terminamos para recomeçar, nos perdemos para nos encontrar, morremos para fazer parte de algo maior”.

Subitamente acordei, percebi que havia cochilado debruçado sobre a mesa, fiquei com aquela sensação de que tudo foi muito real. Durante todo o dia estava extasiado e pensativo, sei que algo em mim deve mudar, não colocarei resistência, quero mergulhar nesse mar.

Bendito seja o tempo no seu santuário de solidão, que não permite que ela seja violada pelos nossos barulhos, que cumpre a sua missão com maestria e que, além de tudo, não nos espera para que esperemos e encontremos Aquele que é o Princípio e o Fim de tudo.

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